Só é vencido quem desiste de lutar

03
Nov 15

A nova orgânica governamental fez despertar o olhar para uma realidade que é oportuno evidenciar pela importância que a mesma deve exercer na comunidade Arganilense.

Quando um grupo de pessoas demonstra interesse e manifesta, voluntariamente, disponibilidade para dinamizar e participar em iniciativas com o propósito de acrescentar valor a si próprio e partilhar com outros as suas competências e vivências, visando estimular a aquisição de novos conhecimentos, a promoção da auto-estima, a solidariedade, em suma, o engrandecimento da pessoa humana, estamos por certo a falar de cidadania e de cultura.

Cidadania, porquanto se cumpre o dever de participação activa dos cidadãos na vida da sua comunidade, através da adopção de modelos inovadores de intervenção e de identificação de interesses comuns, contribuindo para a motivação de novos actores para o exercício de uma acção que tende a afirmar e consolidar a educação e qualificação não formal das pessoas como uma prioridade.

Cultura, na medida em que a iniciativa se enquadra na promoção da leitura e do contacto com o livro enquanto veículo promotor de conhecimento e de troca e absorção de saberes e hábitos que se apresentam como valores essenciais para o processo de humanização e civilização, ou seja, que facilitam a vida do Homem no seio da sociedade que o acolhe.

É esta atitude que decorre da actividade promovida pelos “Amigos de Ler”, um grupo de apaixonados pela leitura que se reúne mensalmente na Biblioteca Miguel Torga em Arganil para debater e dissecar temáticas que emergem das suas próprias necessidades e interesses, estejam elas ligadas a uma ideia, uma personalidade, uma página, um local ou, simplesmente, uma memória.

Apesar de uma actividade já com relevância, só recentemente os “Amigos de Ler” adquiriram maior visibilidade, através da realização de uma acção que pretendeu, e conseguiu, não só divulgar e valorizar a obra de uma autor e estudioso da sociedade Arganilense, o Engº Amândio Galvão, mas sobretudo “obrigar” os participantes a reflectirem sobre o que foi e o que é Arganil e qual o papel que cada cidadão deve desempenhar num contexto cada vez mais global e permeável a influências externas, mas que não deve alienar a sua identidade e as suas tradições.

Pelos valores e pelo exemplo inspirador que transporta, para mais num momento em que o individualismo tende a progredir na sociedade, é de louvar e destacar a existência destes modelos de intervenção e participação colectiva, em que cultura e cidadania avançam lado a lado, para mais em territórios onde os mesmos não são acolhidos com a relevância que deveriam merecer, pois, infelizmente, as prioridades ainda estão direccionadas para a satisfação das necessidades materiais.

 

Publicado no Diário de Coimbra em 03.11.2015

publicado por miguelventura às 20:00

20
Out 15

No rescaldo das eleições é natural que as análises e os comentários sejam direccionados preferencialmente às ilações políticas que delas decorrem. É nessa esfera que as mesmas se enquadram, ao proporcionar a cada cidadão a livre escolha do programa, que no seu entender, melhor responde aos problemas do país.

Entre outros, considero que há um indicador que, pela sua importância no contexto dos territórios de baixa densidade, também deve ser merecedor de atenção, pelos efeitos que produz e que poderão agravar as assimetrias com outros territórios, se entretanto não forem tomadas medidas correctivas.

Refiro-me à evidência de nos últimos 4 anos, desde as eleições Legislativas de 2011, os 5 concelhos do Interior do Distrito de Coimbra terem perdido cerca de 5% dos seus eleitores, o que não deixa de ser um número assustador face ao curto espaço de tempo decorrido.

Esta realidade confirma o acelerado processo de despovoamento que caracteriza este Território, e não é displicente a sua importância porquanto tem consequências significativas tanto ao nível do financiamento das Autarquias Locais, que está indexado à população, como ao seu próprio modelo de gestão, pois o número de eleitos locais está directamente relacionado com os eleitores inscritos.

É a representatividade de todos os cidadãos que poderá estar em causa neste processo e consequentemente a própria democracia.

Com efeito, quanto menos eleitos menor a possibilidade de todas as forças políticas elegerem Vereadores ou Membros das Assembleias Municipais, limitando a capacidade de intervenção a um maior número de cidadãos, cujas opiniões não encontrarão eco nos respectivos órgãos autárquicos.

A continuar o mesmo ritmo de redução de eleitores, temo que nas eleições autárquicas de 2021, dentro de 6 anos, haverá concelhos na Beira Serra que irão sentir directamente este efeito, sendo o Concelho de Arganil o que se encontra numa situação mais preocupante, ao serem obrigados a diminuir o número de eleitos, tal como preconiza a actual Lei, isto se nada for feito para contrariar este dramático cenário.

Em 2011 foi despoletado processo de reorganização administrativa ao nível das Freguesias. Terá constituído esse o início do caminho do qual resultará uma agregação de Municípios para ganhar a escala de intervenção entretanto alienada?

Para o bom funcionamento da democracia e da participação cívica dos cidadãos, desejo que não seja essa a via de resolução do problema.

Pelo contrário, o quadro descrito deve ser entendido como mais um estímulo para a urgente adopção de políticas públicas promotoras da coesão social e territorial, que revertam ou, pelo menos, minimizem os efeitos desta situação, sem colocar em causa a identidade e o sentimento de pertença dos cidadãos ao seu próprio território, que jamais deve ser questionado.

 

Publicado no Diário de Coimbra em 20.10.2015

publicado por miguelventura às 20:00

06
Out 15

Muhammad Yunus, Nobel da Paz, definiu como negócio social o que emerge de uma empresa que não visa a maximização do lucro, mas que é projectada para atingir um objectivo social ao qual as tradicionais regras dos mercados não estão preparadas para responder.

Atrevo-me a incluir nesta definição, tendo por base algumas experiências que decorrem no contexto dos territórios de montanha e de baixa densidade em que a dispersão das populações é uma realidade concreta, algumas actividades que se apresentam com um cariz fortemente social, sem esquecer o fim económico que lhe está subjacente.

Apesar do eventual e inexplicável estigma que em alguns possam ainda associar ao exercício da actividade de vendedor ambulante nas aldeias serranas, devem merecer relevância os aspectos positivos que daí decorrem tanto para o bem-estar das populações, como enquanto oportunidade de negócio para quem o desenvolve.    

É neste quadro que pretendo evidenciar a capacidade empreendedora de dois jovens da Beira Serra, que contrariando uma postura passiva e de resignação face às circunstâncias do momento, souberam identificar uma possibilidade com a qual poderão concretizar as suas legítimas ambições, sendo hoje verdadeiros agentes de desenvolvimento rurais que diariamente se disponibilizam para combater o isolamento de quem resiste em continuar a marcar a paisagem com a presença humana.

O facto de, na maioria dos casos, se constituírem como a única presença externa à aldeia durante vários dias, aliado à disponibilidade que sempre manifestam em dar apoio e colaborar com os seus clientes e população em geral, permite-lhes exercer um importante contributo para a fixação desta com uma melhor qualidade de vida, ao promoverem a aproximação e a ligação destas pessoas aos bens e aos serviços de que necessitam para o seu dia-a-dia, e ao transportarem, juntamente com a sua juventude, uma palavra amiga e de conforto, fazendo-as sentir que não estão sós.  

Os exemplos do Joaquim Mateus e do Cláudio Silva, empresários em Cortes de Alvares e Arganil, respectivamente, entre outros, pela sua atitude de abnegação, decorrente da circunstância de juntarem à sua actividade profissional, uma vocação solidária de dedicação ao próximo e a quem mais necessita dos seus préstimos, encaixam na perfeição na personagem do novo “João Semana”, para quem os ganhos económicos não eram o único fim da sua acção.

A sua predestinação para o risco e pro-actividade vem demonstrar que existe um conjunto vasto de oportunidades que devem ser potenciadas em benefício da criação de novas empresas e empregos e que, ao mesmo tempo, representam um factor de desenvolvimento local a não desprezar nestes territórios mais fragilizados, onde todos têm uma responsabilidade social a assumir e a concretizar a bem do todo colectivo.

 

Publicado no Diário de Coimbra em 06.10.2015

publicado por miguelventura às 20:00

22
Set 15

Muito se tem escrito e falado sobre a importância das acessibilidades para o desenvolvimento económico e social da regiões e para a promoção da coesão territorial.

Também é conhecida a postura assumida pela Comissão Europeia em relação ao novo ciclo de fundos. Perante os indicadores globais que o País apresenta, considerou os investimentos em infra-estruturas rodoviárias como prioridades negativas, ou seja, não há mais dinheiro europeu para novas vias de comunicação.

Contudo, não podemos deixar cair no esquecimento de que ainda existem vários territórios que pouco ou nada beneficiaram dos avultados investimentos efectuados nas últimas décadas, continuando os seus cidadãos e as suas empresas a não ter ligações condignas desse nome para as suas deslocações e escoamento das suas produções.

Enquanto cidadão da Beira Serra, não poderei deixar passar o actual momento eleitoral, para, num puro acto de cidadania, juntar a minha humilde voz à de todos quantos, legitimamente, têm reivindicado mais investimento para esta Região, no sentido de ultrapassar os constrangimentos ao seu desenvolvimento. A defesa do Interior é também um desígnio do Estado Social.

Bem sei que recentemente foram anunciados alguns milhões para a melhoria de acessibilidades na Beira Serra, mas tal sabe a pouco, a muito pouco, quando se verifica que os mesmos pretendem resolver alguns problemas, prioritários é certo, mas não estão inscritos numa lógica de fomento da aproximação de Concelhos vizinhos com fortes relações diárias e movimentos pendulares significativos que não devem ser menorizados.

Investimentos pontuais poderão colocar em causa estratégias de desenvolvimento comuns, quando ao invés de aproximar, repelem e afastam importantes parcelas desses Territórios, agravando as assimetrias já identificadas.

Para além da conclusão do I.C.6 que tem merecido um maior destaque, entendo que a beneficiação do traçado da E.N. 342 entre a Lousã, passando por Góis, Arganil, Coja, I.C.6 insere-se nessa lógica de via de proximidade e não pode ser descurada no seu todo, pelos impactos que exerce e que importa potenciar. A intervenção prevista para esta via entre Arganil e Avô/E.N. 230, só poderá ser entendida como o início da resolução global deste velho problema.

Não vivemos numa ilha, mas sim num território que quer reforçar as ligações sociais e económicas entre si e integrar novas rotas que fechem a malha rodoviária existente, como seja uma eventual ligação entre a A25 e a A13 que atravesse toda a Beira Serra, pelo que não se toleram mais adiamentos.

Que neste período eleitoral as forças políticas assumam uma postura compromisso sério e honesto para com a Região, traduzido num acto de efectiva solidariedade em favor de quem há muito (des)espera por uma nova esperança para o futuro.

 

Publicado no Diário de Coimbra em 22.09.2015

publicado por miguelventura às 20:00

08
Set 15

A realização de mais uma Feira do Mont’Alto em Arganil, é também um momento de (re)encontro e de renovação e aprofundamento das cumplicidades geradas pelos Arganilenses ao longo de muitos anos das suas mais diversas vivências nesta vila e Concelho.

Numa época em que o egoísmo e o individualismo se sobrepõe aos interesses comuns, importa preservar estas experiências de vida, enquanto elementos que fazem parte da nossa história individual e colectiva e que contribuem para a construção de uma comunidade alicerçada em valores como a lealdade, a amizade, a solidariedade e no pleno respeito pela diversidade de opiniões.

É por certo esta a motivação que está na base da organização dos mais variados e calorosos convívios que se realizam por estes dias em Arganil e que são momentos de exaltação e afirmação do sentimento de estima e afectividade que une quantos neles participam, fortalecendo a própria identidade local.

Estas são iniciativas informais profundamente marcadas pelo respeito pela história, empenho e dedicação daqueles que ao longo dos anos foram capazes de construir o caminho trilhado, e que nos permitem ser o que somos hoje, independentemente de se concordar ou não com algumas das opções tomadas em determinadas circunstâncias.

Não é possível idealizar um futuro de progresso e de desenvolvimento, se o mesmo não for consequência de uma reflexão séria sobre o passado, ou seja, capaz de reforçar e consolidar os factores positivos e de corrigir a trajectória quando a mesma se afasta dos objectivos delineados.

Só um verdadeiro e genuíno espirito de colaboração e cooperação entre as pessoas permitirá que tal suceda e facilite ultrapassar as dificuldades que no dia-a-dia se apresentam como obstáculos à edificação de uma sociedade mais justa, em que as expectativas dos seus cidadãos possam ser efectivamente satisfeitas, conferindo-lhes um melhor nível de vida.

Quando os ganhos de escala, de dimensão e de representatividade enchem e lustram os discursos, a prática tem de lhes corresponder sob pena de não passarem disso mesmo, palavras vãs que não produzem qualquer efeito, a não ser o de descredibilizar quem as profere. E infelizmente são tantos os exemplos desta realidade.

Sendo a Feira do Mont’Alto a oportunidade por excelência de exaltação dos sentimentos que aproximam os Arganilenses ao seu Concelho, que seja igualmente um espaço onde se cumpra esse nobre desígnio de promover a união de todos quantos estão imbuídos da mesma vontade e querer em fazer mais e melhor pela sua terra, contrariando as vinganças e os ódios mesquinhos e sem sentido, que alguns, por não terem beneficiado dessas estimulantes vivências, teimam em alimentar.

 

Publicado no Diário de Coimbra em 08.09.2015

publicado por miguelventura às 20:00

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